Setor C

[CONTO] Um sorriso debochado

Todas as noites ela me olha. Fica me observando como se eu fosse roubar alguma coisa. O que ela pensa que eu sou? Um ladrão? Um marginal? Achei que nesse país não existia isso.

 

A vida era dura no Brasil, mas não mudou muito quando cheguei no primeiro mundo. Oras.. me olhar com essa desconfiança? Ahhhh. Já estou perdendo a paciência com ela. Penso em fazer uma besteira. Hoje quase desisti de vir para o trabalho. No caminho pensei em retornar, inventar uma desculpa, falar que estava doente.. mas cheguei aqui. Afinal, é o meu trabalho.

 

Resolvi que hoje vou ignorar essa mulher. Ô mulher esquisita. Vou fazer o que sempre faço, normalmente. Vou limpar aqui, passar o pano ali, tirar o pó daquele outro ali. É isso que eu faço, eu limpo. E limpo muito bem diga-se de passagem. Mesmo com uma mulher petulante me espionando, olhando como se eu fosse um animal. Ela é muito estranha. Fica só com aquele sorrisinho no rosto. Será que é mesmo um sorriso? Ou uma expressão de desconfiança? Nem sei mais. Só sei que não gosto dela. Mulher irritante.

 

Hoje não vou passar ali no setor dela. Muito menos olhar pra ela. Se depender de mim, ela vai viver na sujeira. O lugar ficará imundo e ela terá que pedir de joelhos se quiser que eu limpe ali. Ah como me irrita essa mulher. Que ódio. Não.. não posso fazer isso. O sr. Leon ficará muito bravo. Não posso perder o emprego. Não por causa daquela lá. Não por causa de alguém que não merece nem meus pensamentos.

 

Será que estou apaixonado? Minha mãe dizia “quem desdenha quer comprar”. Será que isso significa alguma coisa? Não, não pode ser. Não aquela mulher. Não pode ser.

 

Ignora Jeremias, ignora. Passa por ela limpando rapidinho. Talvez ela nem perceba.

 

O QUE VOCÊ QUER DE MIM??? POR QUE FICA ME OLHANDO ASSIM?? SUA MALUCA… PARA DE RIR DESGRAÇADA!

 

Calma.. calma.. ela não falou nada. Será que ficou com medo? Será que exagerei? Não devia ter gritado com ela. Ahhh mas aquele sorriso debochado. Que ódio.

 

Quando a conheci pensei em dar seu nome para minha primeira filha, se um dia eu tivesse uma, claro. Achei o nome lindo. Mas agora.. agora não consigo nem pronunciar sem tremer de raiva. Que mulher odiável. Que mulher esnobe, desconfiada, irritante… que mulher horrorosa. Como pode tanta gente gostar dela? Uma baixinha ordinária, que debocha das pessoas, que se acha superior com aquele olhar esquisito. E o sorriso? Tenho vontade de bater nela só de pensar no sorriso. Tenho pensado muito nisso ultimamente, em fazer uma besteira. Todas as noites, quando deito para dormir, me imagino cometendo uma loucura. Fico fantasiando os momentos de raiva, o ódio que eu sinto dela, que ódio, muito ódio.

 

Não. Fica calmo Jeremias, você não pode estragar a sua vida por causa daquela maluca. Não pode. Calma, calma.

 

Já é quase meia noite. O sr. Leon disse que passaria aqui esse horário pra fiscalizar. O antigo faxineiro disse que o velho fazia isso toda semana. Será que ele também desconfia de mim? Tenho medo do sr. Leon, ele parece um vilão de filme antigo. Usa uma barba estranha e aquele chapéu esquisito. Sr. Leon. Não sei o sobrenome dele. Nem quero saber. Dizem que ele já mandou cinco faxineiros embora no último ano. Cinco. Eu não quero entrar pra essa lista não. Vou ficar bem quietinho e fazer meu trabalho. Aqui tudo é velho, tudo. Não me admira terem contratado o sr. Leon para administrar o lugar. Ele combina muito bem com tudo isso aqui.

 

Shhh.. está vindo alguém.

 

Ufa, é só o Louis, o vigia noturno. Ele é um cara legal, tem um monte de filhos, com várias mulheres diferentes, mas é muito gente boa. Acho que ele também não gosta muito daquela mulherzinha não. Ele passa por ela sem nem cumprimentar, mal olha em sua direção. Será que ele também a odeia? Tenho medo de perguntar. Vai que ele gosta dela e fica bravo comigo? Melhor ficar na minha mesmo.

 

E por que é que ela tem que ficar aqui durante a noite também? Facilitaria muito minha vida se ela ficasse só durante o dia. Vai embora pra casa, vai cuidar da família, passear em outro lugar, mas me deixa em paz, mulher dos infernos.

 

– Jeremias! JEREMIAAAAS! A voz do homem parecia um trovão em meio a tempestade, fazendo Jeremias saltar assustado com o chamado.

 

– S..sim Sr Le.. Leon.. estou aqui.

 

– Você já limpou a sala nova? Aquela que estava em reforma?

 

– Sim, já está tudo em ordem Sr. Leon. Respondeu o faxineiro, aliviado por ter cumprido a tarefa com antecedência, evitando assim uma bronca daquelas por parte do chefe.

 

– Ótimo! Logo cedo a Monalisa será transferida. E na quarta-feira os visitantes do museu poderão contemplá-la novamente.

 

Monalisa. Só de pensar nesse nome já fico tremendo de raiva. Pelo menos a sala nova é bem mais afastada e não terei que olhar para essa mulher o tempo todo. Sorrisinho debochado aquele.. oras…  

[CONTO] Sobrevivência

“Acho que consegui despistá-los. Vermes!”

Uma dor irritante iniciou bruscamente na região do abdômen de Samantha. Ela baixou os olhos e pode ver o sangue escorrendo, o seu sangue. “Malditos! Me pegaram de surpresa … estavam me observando.”

Com certa dificuldade conseguiu chegar a um beco escuro, ainda não sabia o que a atingira, desconfiava de um tiro, mas não tinha certeza, queria apenas sair dali. O beco era escuro, do jeito que ela queria. Ali podia usar seus poderes de camuflagem e se esconder nas sombras, podia despistar os homens que estavam em seu encalço. Precisava de sangue.

“Ahhh humanos! Vermes do inferno! Vão pagar por isso!” Esbravejava a jovem vampira ainda com dores no ferimento.

Ouviu passos nas ruas. Ficou quieta e escondida nas sombras. Podia ouvi-los, eram eles, os malditos humanos que a feriram. As ruas de São Paulo já não eram mais seguras. Os humanos evoluíram, perderam o medo, contam com avanços tecnológicos que os auxiliam em suas caçadas, nas caçadas contra os vampiros. Agora era hora de se esconder…

A jovem levantou a cabeça e pode ver uma silhueta na entrada do beco. Não dava pra ver se era um de seus algozes, mas temeu por sua imortalidade. Samantha se preparou para atacar quando a sombra começou a se mover em sua direção. Não morreria tão facilmente, não assim, nas mãos dos humanos.

“Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh” … novamente uma dor latente tomou conta do seu corpo, agora nos membros inferiores … algo acabara de atingi-la novamente … mais sangue escorrendo!

“Eles podem me ver…” e tudo escureceu ao seu redor.. 

>> Esse micro-conto foi publicado originalmente na edição #29 do Fanzine Adorável Noite, do amigo Adriano Siqueira, em 2009. A edição completa pode ser baixada no site do Overmundo.

[CONTO] As Aparências Enganam

O português caminhava a passos lentos pelo corredor escuro. Mal conseguia andar meio metro sem tropeçar em alguma coisa.

“Ora pois… não fazem mais corredores como antigamente. Ah, mas esse espertalhão me paga.

A caminhada parecia interminável. Seu Pereira parou de repente após tropeçar em uma panela e fazer um estardalhaço gigante. Uma luz acendeu no fim do corredor. Era o fim, tudo estaria acabado. Se o italiano parvalhão o encontrasse ali estaria perdido.

“Caspita! Quem está aí?”

Nenhuma resposta. O tintilar das panelas ainda podia ser ouvido, mas nenhuma resposta.

“Bichanos maledetos. Será que terei que matar todos os gatos dessa cidade???”

A porta se fechou novamente e a luz foi apagada. Novamente o corredor estava um completo breu. Seu Pereira não gostou do comentário sobre os gatos. Já não gostava do cozinheiro italiano, agora então o odiava.

“Don Giuseppe pode ser o maior mafioso da cidade, mas não tem o direito de sair por aí maltratando os pobres gatinhos. Ah, mas ele vai ver, ora se vai pá.”

O atrapalhado português continuou sua caminhada até a porta da cozinha. Abriu lentamente, tentando não fazer mais barulhos. Colocando o bigode para dentro deu uma leve espiada. Tudo livre. Talvez o italiano tivesse saído para comprar ingredientes ou para tramar alguma coisa contra os pobres gatinhos.

Arriscou então colocar o primeiro braço. Esperou. Ninguém. O caminho parecia livre. Entrou devagar e bateu a porta para fechá-la. O barulho foi enorme. O português congelou. Ficou imóvel, em pé ao lado da porta, olhando fixamente para o outro lado da cozinha. Ninguém entrou. Soltou o ar e respirou aliviado, o italiano estava fora.

“Legumes? Desde quando um italiano faz legumes? Onde estão as pizzas, as lasanhas e os molhos? Ó pá, mas este mafioso espertalhão está mesmo de piada.”

De repente a porta do outro lado da cozinha se abriu. O português congelou. Apenas abriu a mão para cair alguns parafusos na panela que refogava os legumes. É o fim, pensou novamente.

Para sua surpresa não foi o italiano que entrou na cozinha, mas sim um estranho homem com a cara pintada de branco e preto e alguns desenhos que lembravam os músicos de uma banda de rock americana.

O português olhou com surpresa. O homem do outro lado também congelou ao ver Seu Pereira.

Os dois trocaram olhares por um longo e interminável minuto. O estranho de cara pintada trazia alguns vidros de pimenta e um pequeno saco plástico em uma das mãos. O que seria aquilo?

Sem pensar duas vezes o português gritou:

“Maledeto! O que estais fazendo em minha cozinha?? Digo, o que faz na minha cozinha, ora pois …”

Por mais que tentasse, Seu Pereira não conseguia disfarçar o sotaque português e muito menos falar como o cozinheiro italiano. O cara pintada do outro lado do balcão sorriu, entendendo o que estava acontecendo ali.

“Tá, tá. Não sou Don Giuseppe. Meu nome é Nuno Pereira, ou Seu Pereira. E o seu??”

O português perguntou enquanto jogava mais alguns parafusos na panela.

O homem apenas levantou a mão e fez uma mímica esquisita que o português não entendeu. Depois levantou os vidros de pimenta e apontou as panelas. Continuou seus trejeitos, balançou a cabeça para frente e para trás, fez cara de quem ia vomitar e pegou um copo d’água, virando diretamente dentro da boca. O português achou graça nas mímicas do homem de cara pintada.

“És muito engraçado, pá! Estais tentando me dizer que quer virar esse troço aqui dentro das panelas?”

O mímico concordou com a cabeça. Deixou os vidros sobre o balcão, próximo ao fogão e juntou as mãos. Fez caretas simbolizando que estava pedindo “por favor” para o português. Novamente Seu Pereira riu.

“Tá certo então, mas vais bem rápido que o mafioso já deve estar voltando. És cozinheiro também?”

Novamente o homem fez sinal de positivo com a cabeça, enquanto despejava um vidro de pimenta dentro da panela. Pegou um brócolis dentro da travessa de vidro e olhou para o português, levantando os ombros em sinal de interrogação.

“Nem me pergunte. Também não entendi porque o italiano está a fazer estes legumes aí. Vamos embora logo.”

Os dois saíram pelo corredor de onde o português tinha vindo.

“Vamos gajo engraçado, é por aqui.”

Ao chegar no final do corredor e sair do local, o português não viu mais o mímico.

“Onde será que ele foi? Era um gajo muito engraçado mesmo.”

Foi então que Seu Pereira viu um cartaz preso atrás da porta pela qual saiu. A imagem mostrava o mímico em algum tipo de programa de TV, junto com apresentadores e atores famosos.

“François au Lait, o famoso cozinheiro francês é o novo apresentador do programa Mais Cozinha”. Leu as palavras em voz alta. “Ora pois, mas não é que o gajo é famoso mesmo.” 

E continuou a caminhada em direção a sua cozinha. Tinha um campeonato para vencer. Já tinha tirado um dos competidores do caminho, precisava descobrir quem eram os outros. Abriu a porta e entrou na cozinha. O cheiro da carne estava bom, já devia estar quase pront…

“ARRRGGHHHHHHHHHHHHHHHHHH… quem foi que jogou estas baratas no meu cozido? Eu mato um hoje, ah se mato!!!!”

Foi então que viu o pequeno saco plástico ao lado das panelas e lembrou, do agora não tão engraçado, cozinheiro francês.

“Gajo maldito, eu mato. Eu mato. Hoje eu mato e mando para os quintos dos infernos, ah se mat…”

Mas Seu Pereira primeiro precisava limpar sua cozinha. Não poderia vencer o campeonato apenas sabotando seus adversários. Precisava fazer um delicioso prato, um prato vencedor. Precisava repensar suas estratégias, precisava de um tempo. Era necessário… recomeçar.

>> Esse conto faz parte de uma experiência transmídia que realizei para o jogo de tabuleiro The Cook-Off, criado por Luis Francisco Baroni e lançado pela Funbox Jogos.

Em The Cook-Off, cada jogador é um cozinheiro que disputa um campeonato mundial de culinária. O objetivo é cozinhar carnes e legumes e subir no ranking de pontuação. Ao final do jogo, quem tiver mais pontos vence o jogo. A grande sacada do jogo são as sabotagens. Isso mesmo, um jogador pode sabotar a cozinha do seu adversário, colocando pimenta, parafusos ou insetos asquerosos na comida do outro, fazendo com que ele perca pontos ao final do jogo ou atrase sua caminhada ao topo do ranking.